perdi a poesia,
deixei-a entre a colina longínqua,
entre palavras inexistentes
e causas sentidas,
que imaginava quando os olhos cerrava.
entreguei-me à sombra.
apego-me a um lampião,
ah, e esta luz faz-me traçar, criar, tecer letras.
contemplo:
a luz - as formas do mundo,
cada corrida
e sentimento que os demais renunciam.
admiro o esquecido,
as sobras de vitórias gloriosas
que esbordam em ilusão a vida.
contemplo toda a estrutura,
todo o tecido de toda esta teia.
tenho-a em mim.
e é inseto à aranha toda a verdade
que percorre nesta veia:
que a arranco,
mato-a, estripo-a, volta-me,
nunca dá descanso.
por fim,
observo o mais que tudo ao mundo:
esta natureza, não só vossa, igualmente minha.
todo eu sou mutuamente lama, vida, selva.
ah, contemplo todo o inseto que em mim mora,
a aranha sorri,
pois a refeição cobra-se a esta hora.