quinta-feira, 23 de setembro de 2021

frenesi desbotado

como se deus tivesse decidido,

defeitos geométricos,

intrusão de bactéria em teu íntimo.

como se deus tivesse decidido,

mordi língua,

rompi pele,

quebrei osso,

transtorno, oscilação, palpitação, enfermidade.


em quantas vozes podes crer?

crê nesta que te faço notar.

finalmente prendo teus olhos em lasca que me pertence.

observa-me agora:

cambaleando por tua retina,

observando entidade que usufrui da observação de se ser observado,

provo imagem trabalhada.

virtuosa. pálida. etérea. 

imagem. imagem. imagem. apenas.

fragância psíquica a que me exponho.

persistes. imagem.

sob meu corpo a náusea de futuro.

o receio de te entranhar. de fumar o teu paladar. de te escrever.


como se deus tivesse decidido,

hoje, escrevi.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

descanso de infância

quem vive no pretérito,

corre por afago à saudade.

sou preenchido de saudade.

percorro-me por união virtuosa.

necessidade de experimentar descanso de infância.

nostalgia. melancolia. (pouca) lucidez. 

sensação não-frívola.

afirmar figura.

encarar a face que faceia a própria consciência de se estar a encarar a face que faceia a própria consciência.

ah, o tremor. 


busco.

o que mais protegido se detém em poeira desértica,

no olhar escarlate de cansaço, 

de seres agitados, confusos, perdidos, perdido.

escavo em grafite,

brilho, dureza, beleza de quem persiste. na metamorfose.

na intensidade.

na tentativa de encaixe.

no repetido corte, recorte de atingir

isenção à amargura e ignorância de criatura

que persiste.

paladar esforçado. conquistado. 

cinzento. ferro. betão. listrado cubo. oxidação.

difícil. luta.

 

a certo momento

despoleto-me em dor, raiva e agressividade.

quem sabe o que farei?

quem me encarará? 

podes conter estas lágrimas na pequenez de teus olhos?


domingo, 23 de agosto de 2020

velho presunçoso nacionalista, modere-se

emprego-me de cor e vontades.

tinjo assaltos, rupturas e tremores em:

paredes de muros.

porrada massiva em tijolo.

requebro-me em campos e prados. 

atrito-me em pó,

escavo o universo,

detenho cisco entranhado que apressura entre unhas.

aspiro essências pelos olhos:

ossos de madeira,

unhas de barro,

dentes de latão,

quentes vísceras em asfalto,

maxilar dormente,

chuvisco de dente,

gengiva rosada rasgada.

eu, obtuso:

afiado corte conta quantos dentes 

a gravidade assegura.

orvalho sem flúor.

quente pressa,

quente raiva, fria certeza de osso em maxilar.

rápida força, choque musical,

prescrição suculenta de moedas.

loucura e vaidade ocular.

seco sangue e um sorriso de perfurado esmalte. 

 

velho presunçoso nacionalista, modere-se.

 



quinta-feira, 9 de julho de 2020

plano_1

não me rendo à vontade de fugir,
ao barulho das máquinas,
à peste que se esganiça,
mas às palavras que te escrevo.

hoje. 2020:
é fome de pai,
meia-fome de filho.
riqueza sucessiva mantida em colarinho,
barriga cheia de novilho,
reunião, acordo-delito, crime,
arde-se papelada de justiça
mantém-se regime
que nós pagamos
e em seu retorno:
meias-verdades, meias-promessas,
carvão, tabaco, doença e cansaço.
morte tua,
minha e do bagaço.
foda-se, venha mais vinho que quero a parte boa da vida.











quarta-feira, 27 de maio de 2020

a prova nobre da paciência

fraturo pedaço de esmalte
contra granito
rígido, íntegro, concreto real impacto.

escoo-me de pernas soltas, separadas
num ninho de areia que se apodera de mim
lento, constante, durável.
a-prova-nobre-da-paciência.

sirvo-me bebida, pão
de veneno e cristal-grão
afiado que pinta pontos,
forma-me linhas,
separando planos,
entre as entranhas
que me desenham, lentamente, apetecíves
recortes moleculares.

num vão temporal.
fotografias de autópsia,
órgãos, vísceras e cabelo
grudentos em fuligem.
um enterrar
desmedido e agudo.
um relembrar de amolados olhares
daqueles que se auto-afogam.
e eu não choro. não, hoje.

sábado, 14 de março de 2020

a loucura

prelúdio da loucura

meus olhos a pendurar árvores,
minha boca faz nascer flores,
(ainda que pequenas, frágeis e prontas para o trespasse)
meus braços ramificam rostos
e estes meus pés mais leves que areia
pintam nos céus cadências
que padronizam ideias que se refletem em meu cérebro.



a loucura

limito-me a escrever
quando os dedos estão cravados de farpas.
antecedentemente, morreram vários cravos, narcisos e tulipas.

passeava as pernas.
comia os legumes.
prometia-me amores e ciúmes.
nasciam-me umas quantas ideias modernas.
procurava insistir numa âmbição que provavelmente não existe.
adormecia a ouvir canções que não são para se adormecer.
confundi-me e triturei este passado
que já não me colorifica.

não me sei contar ou frisar.
não ceifo ou colho teorias, posições ou ideias.
não o faço mais.
pois, estou de língua ácida,
com uns olhos que tecem uma malha encarnada,
por vezes contam o mar,
um mar vermelho.
se me miro e me penetro nesse mar:
ah, a viagem.
a loucura. 
a minha própria loucura a crer nas leis físicas,
a colidir-me e quebrar-me os ossos e os dentes.
e só resto eu. só.
eu, a roer os dedos e os pulsos.
eu, a contar-me que existo.

que sou eu agora?
medonho miserável desprotegido.
estas gengivas pintam em vermelho,
dentes rachados, nariz de apodrecimento tingido
e lábios murchos de tamanha realidade que pronuncio.


lapsos incoerentes para vós?
sou monte de incerteza.
e que posso eu prender, agarrar, implementar em minha pele? 
ou em minha alma?


em tentativas frágeis, se me perco em fractais
penso em ti amor
e em ti verde-mãe.





quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

primeira tentativa crua de expor em palavras uma noite; versão_1

existem salpicos de água salgada.
existem uns quantos sons que não em palavras,
mas que em lamúrias.

a noite deixa a luz desenhar-lhe o céu.
o céu está lindo hoje,
a noite assim o está.

existem uns quantos salpicos de água salgada
e a noite está bela.
e eu aqui a deixar que ela me brilhe aos olhos.
existem uns quantos salpicos de água salgada,
que me desenham caminhos na face,
que me pintam como se fosse um gladiador,
pronto a encher-me de adrenalina e lama.

e anteriormente ao salto da lua,
ah, o dia:
hoje o dia foi igual aos outros.
cada vez sinto mais este teto
sustentado pelo constante aroma de rotina,
que já nem me é sentido. é-me dormente.
cada vez mais se formam pequenas ruturas,
que são lindas,
como este céu,
como esta noite.

existem coisas que vejo
que provocam meus olhos;
soltam-se.
perco-os entre fios de costura
e tenho de os prender a mim de novo.
cada vez que se dão bem presos
destino-me à minha solidão mental:
um eu só, nesta cidade fria.
pois vos digo, de tanto em tanto, estes olhos perdem-se.
não sei que faço de mim sem eles.
pareço leviano.
se estes olhos se aventurarem, em maior prazo,
por andanças perigosas,
provavelmente, meu fim estará ditado.
qual seria meu destino se de cegueira me findasse?

num episódio onde os olhos me escapam:
a noite estaria, até, linda,
mas já não a veria.
e, em quentes tecidos,
perdido no escuro:
deambular-me-ia, como sempre.
estas conclusões já não são frescas:
sou feito de peripécias.
na íntegra, num plano límpido: minhas ideias preenchem-me.
vejo mais do que posso.
tenho um futuro que não é sedoso,
nada palpável,
que me escapa ao toque como que fumo,
que me cobre
e me pinta
com óleo, com resina,
com tóxico que me afoga
e me recria 
como ser inimaginável que não sou, 
nem serei.
e escondo-me. 

aqui estou eu neste quarto
a escrever,
a rabiscar os dedos,
de olhos perdidos,
com luzes a cintilar no meu próprio céu.
ocupo-me a fingir 
que meus olhos não criam
momentos enriquecidos por sabores utópicos
que sei que nunca experimentarei.

e cá estou eu.
agora que recompnho a visão,
aceito este daltonismo.
cá estou eu, 
um eu nostálgico
ao som do neutro silêncio
que me confere
uns quantos caminhos
cheios de alegria que nunca conseguirei vivenciar.
mas eles cá estão, e cá estou eu.

existem uns quantos salpicos de água salgada
que pintam neste teto astros,
que acho lindos.