quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

primeira tentativa crua de expor em palavras uma noite; versão_1

existem salpicos de água salgada.
existem uns quantos sons que não em palavras,
mas que em lamúrias.

a noite deixa a luz desenhar-lhe o céu.
o céu está lindo hoje,
a noite assim o está.

existem uns quantos salpicos de água salgada
e a noite está bela.
e eu aqui a deixar que ela me brilhe aos olhos.
existem uns quantos salpicos de água salgada,
que me desenham caminhos na face,
que me pintam como se fosse um gladiador,
pronto a encher-me de adrenalina e lama.

e anteriormente ao salto da lua,
ah, o dia:
hoje o dia foi igual aos outros.
cada vez sinto mais este teto
sustentado pelo constante aroma de rotina,
que já nem me é sentido. é-me dormente.
cada vez mais se formam pequenas ruturas,
que são lindas,
como este céu,
como esta noite.

existem coisas que vejo
que provocam meus olhos;
soltam-se.
perco-os entre fios de costura
e tenho de os prender a mim de novo.
cada vez que se dão bem presos
destino-me à minha solidão mental:
um eu só, nesta cidade fria.
pois vos digo, de tanto em tanto, estes olhos perdem-se.
não sei que faço de mim sem eles.
pareço leviano.
se estes olhos se aventurarem, em maior prazo,
por andanças perigosas,
provavelmente, meu fim estará ditado.
qual seria meu destino se de cegueira me findasse?

num episódio onde os olhos me escapam:
a noite estaria, até, linda,
mas já não a veria.
e, em quentes tecidos,
perdido no escuro:
deambular-me-ia, como sempre.
estas conclusões já não são frescas:
sou feito de peripécias.
na íntegra, num plano límpido: minhas ideias preenchem-me.
vejo mais do que posso.
tenho um futuro que não é sedoso,
nada palpável,
que me escapa ao toque como que fumo,
que me cobre
e me pinta
com óleo, com resina,
com tóxico que me afoga
e me recria 
como ser inimaginável que não sou, 
nem serei.
e escondo-me. 

aqui estou eu neste quarto
a escrever,
a rabiscar os dedos,
de olhos perdidos,
com luzes a cintilar no meu próprio céu.
ocupo-me a fingir 
que meus olhos não criam
momentos enriquecidos por sabores utópicos
que sei que nunca experimentarei.

e cá estou eu.
agora que recompnho a visão,
aceito este daltonismo.
cá estou eu, 
um eu nostálgico
ao som do neutro silêncio
que me confere
uns quantos caminhos
cheios de alegria que nunca conseguirei vivenciar.
mas eles cá estão, e cá estou eu.

existem uns quantos salpicos de água salgada
que pintam neste teto astros,
que acho lindos.

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