sábado, 19 de janeiro de 2019

ranjo-me

sou regido 
dentro de rede.
sou resto
de pura raiva roubada
de cabeça rasgada
a cabeça revoltada.
não rogo.
rasgo-me.
refaço-me e rasgo-me.
não fico satisfeito do que me resta.
volto ao meu eu. revolto-me.
reparto-me. regulo-me.
não devia? reporto-me.
parto esmalte, ranjo-me.
repreendo-me.
não sou ríspido.
preciso de educativa, esmerada repressão.
anseio por elucidativa reparação.
não vejo, não entendo o correr da sociedade robusta.
anseio radical revolução.
não devia,
perco a noção das palavras:
a sua ordem, estática, que acerta ao dever;
e fogem-me umas quantas falinhas mansas 
que deviam permanecer em mim.
rasgo-me.
perco a realidade.
remonto-me,
quando percebo a existência de ruptura.
restabeleço-me,
recuro-me.
não passo de meu reflexo.
um alguém condicionado, pressionado, rudimentar.
ranjo-me.
sou de remorso,
e se me revelo
perco a ordem que me retém.
recuso-me,
revisto-me,
reverto-me,
não vou acordar,
reinvento-me.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

o murmurinho urbano

não resisto.
falo de mim porque só de mim sei.
não olho,
não peco
ao rasgar olhares turvos
que quase me atingem.
faço-o às cegas
num universo fechado; inexistente.
faço-o ao respirar.
repelo o impuro.
sou o que sou, e mais não quero.
sou o que a raiz austera da vida me alimenta.
sem químico.
sem mistura.
sem dedilhado humano à fervura.
nojento este ser que contamina
em cada robusta pernada
e certa vida termina.

e toda a calçada,
toda a rocha que compõe o solo,
e a fresca relva
são agora de cheiro plástico,
aroma sintético de maquinaria cinza:
barulhenta, ofegante, constante, irritante mutante da vida.
meramente lixo semeado
que está, agora, contido em completo lado.
não sobrevivi.