a calmaria tem-me andado surda,
mas não para ele.
pouca luz rasga aquele espaço. e pouca luz ele quer. não é que lhe confunda os olhos ou os possa queimar. talvez ele esteja farto da exposta necessária queimaria a que fica sujeito. não há força que o valha, ele é obrigado a respirar este tipo de rotina. e arde-lhe. custa-lhe engolir a seco toda e qualquer adversidade, não-bem-vinda, que o enfrente. o verdadeiro problema é que se torna constante. é desgastante tortura. uma crueldade que, apenas lhe parecendo a ele, mais ninguém percebe. ele não se oferece de bom grado à vida. talvez veja a vida por um prisma que faça apenas explodir pequenas porções de cores. talvez ele prefira a monocromia enquanto não repousa e queima outros tantos tempos da sua expectante vida. talvez ele seja dos únicos a apreciar o leque de tanta cor na vida. e por isto, peca-lhe aos olhos toda a exposição de cor a todo o instante. talvez ele saiba deliciar-se, ocasionalmente, com o que realmente existe no dia. e daí, possa cometer uns ligeiros pecados que aglutinados servem como um perdão às suas necessidades.
eu era assim. é uma pena eu já não o saber ser.
enquanto crianças, somos, ou seremos, tudo o que queremos. e as profundas sensações que isto acarreta reconfortam todo o desgaste na terra ou todo o choro que nos tenha atingido. eventualmente, a pele prende ao osso e descai com a idade - e assim, o nosso pessoal conjunto de idealismos, criações que nos tenham deixado a salivar pelo futuro, que já ficaram no passado também o fazem - a certo tempo a pele que serve como barreira protetora, transforma-se num fluido suspenso numa atmosfera que nos mata a sede, aniquila umas quantas ideias e traz, com ela, o próprio saber da vida que nos parece a mais pura elucidação. além de nos proteger, ela revolta-se em ideais e muda-nos, como quem não se importa com a voz de quem dita alguns movimentos conscientes do sistema. talvez seja uma espécie de necessidade espiritual ou divina. levar com umas trezentas e tais gotas no rosto e perceber que cada uma delas é um novo pensamento, uma distorção, do que nos era uma idealização e agora se vinca como peculiar deformação leva-nos à simples perceção de novos detalhes, novos limites e cruzamentos, que nos fazem crer que a perfeição está quase ali atingida. isto, pelo menos para nós, enquanto indivíduos diferentes. e aceitamos tudo o que agora nos completa, na nossa nova visão de nós mesmos.