correntes límpidas
prendem o que és,
enquanto o mar dança.
vem e volta.
tu de correntes no corpo
és a mesma,
em construção,
em destruição,
mais salgada,
mais o que serás,
menos o que eras,
lentamente a coisa desenrola,
lentamente a natureza faz-te.
não te ergas perante isto.
não te estragues bruscamente.
não te voltes rapidamente.
não te torças entre músculos, tendões e ossos.
não te rasgues num instante.
prevê situações, mas nem tanto.
aproveita a leveza de uma tépida constante, irritante, evolução.
aprecia a graça a que o próprio universo se constrói.
passo a passo. dia a dia. tempo a tempo. energia a energia.
ele está, repetidamente, a mover-se por onde é capaz,
coincidente às leis que lhe estão impingidas.
não sou um moralista.
e partilho isto
ao mesmo tempo que rasgo papéis de coisas escritas outrora.
não sou o que te peço para seres
ou o ideal do homem.
não te conformes, se o achares.
e Tu para onde vais?
levas um rasto de areia
uns quantos, tantos, cristais, finos, pequenos
que criam padrões. iguais. aos de células que tenho nas peles.
levas coisa que viste em mim,
entretanto vais perdendo
e contigo vou-me perdendo.
vou perdendo qualquer tecido de pele
que reveste o que sou;
até que num esplendor momentâneo
estou nu,
sou inteiramente eu a teus olhos,
e nem o percebes.
talvez de tanto revestimento padronizado
pensas, agora, que minha verdadeira, sagrada,
imune, essência é, de novo, uma capa que reveste.
não me arranco os músculos,
nem os órgãos,
nem os cabelos,
nem a voz,
nem a unha,
nem os olhos que não vês,
pois continuam a ser parte de mim.
vou-me construindo,
pelo que o mar me oferece,
pelo que o mar me tira,
sou tudo o que o oceano me respira
(ainda que por vezes me sufoque).
não me perco, não me desfaço (por enquanto).
sabes que sei que te devo umas quantas palavras quentes.
rebobina os teus olhos ao contrário e lê: palavras estas ti para sempre escrevi.
sei eu, pouco valem.