quinta-feira, 29 de junho de 2017

reviravolta/revinda

1. a una

flor adormecida em campo
e eu de sono sou.
de pura conexão
rouba-me a visão.
flor de espaço solitário
e nos outros campos,
todas de proximidade,
mares de pétalas em paisagem.

brevemente a mente
concede-me liberdade.
esta flor que me acende
e em dias de raio
de pedra faz-me sangue-joelho,
quando outras são paisagem de lacaio.



2. a viagem

minha desolada alma
 que partiu
ao vê-la partir,
frágil, que se entrega
aos outros que, de cinza paisagem,
a sufocam no tempo ao segundo.
e ilumina-me ao acabar o mundo
e acaba-se o mundo por ela
com ela, e por ela.

e minha mente quebra-se
em confusão de memória.
coisa não em vista,
mas de dor realista.


3. o retorno

traz o vento uma fala,
que agasalha ouvido,
relembrando minha forte chama
no passado que não é esquecido.
a flor volta em primavera.
ah a alma, perdeu-se ao planar,
de tão suspensa que esticou do limiar,
para do presente ser tal memória,
que de vento deve atiçar
a chama de água que aviva flor.

e rouba-me esperança
por possuir cadáveres à sua frente
que elemento nenhum sentem,
e eu mutuamente sou natureza
e então porque morres?

sexta-feira, 23 de junho de 2017

as lâmpadas e o jardim à sombra

uma lembrança de criança,
carregada visão, ao escuro,
e via-se ao sentir da relva,
do deserto ao glaciar.
lá estava eu, confortável, ao luar
com um brilho escurecido
de astros que me iam iludindo
e da minha energia consumindo.

a cada contemplação
os meus olhos saem-me
e faziam-se do vazio
ao familiar universo,
como que visse,
e fosse, um deus.
presenciava a rotação,
um ciclo de titãs e eletrões,
que se repete ao infinito.
mas das ideias surge a vida:
seria eu um distúrbio
ao fruto das ideias mais queridas?

os outros montes

e agora que é tudo linear;
a nuvem, já polida, 
deixa-se, e eu com ela
em fortes quedas
de planaltos e montes.
e porque que me levas?
do devaneio era eu
um servo infiel à vida,
nem serve ao consolo
o mais fino e liso papel.
trazem-me os outros
uma gravata-bordel. 

e faço-me de peça oculta.
acessório que se fixa
ao sal e ao animal
na rocha-mar.

que se volte ao tempo
de clima de chuva.
fazer-me olhar a noite
e o céu ao ruído,
de ervas da vida,
de olhos fechados
onde tudo possa ser
de novo uma fantasia.