quinta-feira, 31 de agosto de 2017

silêncio incolor indolor

a vida cansa.
aborrecido palavreado,
um cansaço à dança,
osso fraco derreado
cai-se, derretido, perdido.

dizem alguns que o fim liberta;
diria, alguns, família, em tom de desconforto,
de mão quente e de sangue a possuí-los.
sangue este que, escorrera, em tempos,
num cansaço de marcha.
seria agora mata-sede de rocha.

ah, e a beleza da vida?
que este pensar, sujo e não próprio,
ganhe por instantes autonomia.
que seja eu livre acessório,
marioneta velha que de tanto uso
se morra a madeira, o ferro, o parafuso.
estou mais que gasto,
e o humano é tanto mais fraco
quanto mais se vive pelo sentir.





terça-feira, 22 de agosto de 2017

tinta-sangue

desfigurada pele
ao tom de violentos olhos.
um escuro avermelhado
e uma clareza de propósitos.
a morte,
a matança,
que me alcança;
enquanto percorro a calçada,
fria, ao fervor da vida,
uma ameaça mais que divina,
real.

um corredor de espelhos,
não um retrato, vários.
do outro lado,
um corredor de retratos,
e mais que espelhos espalhados.
porque me faço mirar?
como se cada parcela de tinta,
cada cubículo de vários retratos,
fosse, em precisão, 
uma separada coleção.
disjunções de um início.
uma definição de universo.
eu mesmo ao tato
de uns quantos. 
todavia não o posso sentir.
um cortar de membros, 
que, separados, 
avistam o mundo.

um relógio de sangue,
em calmo açougue,
pinta o tempo num tic-tac.
e tal aberração e tais assombrações,
de quem a noite nos teme,
são mais puro espelho
do que em nós existe.

domingo, 6 de agosto de 2017

flutuar à companhia

deixa-me na chuva,
pois isto é mais que tortura,
mais que anteceder a própria morte,
é fazer na própria alma sufoco-corte.

e eu quero tanto,
mas nem consigo expor-me.
da minha voz foge a força
e sou deserto-oceano.
algo que nunca sou
num lugar remoto,
entre uma  onda,
entre um maremoto...

seguro um prisma de cor
que reflete mundos.
eu, preso entre mundos,
condeno-me ao chão verde,
desligo o ver.
onde os sonhos são palpáveis: 
e estamos perante uma génesis,
uma batalha medieval,
um romance sem final,
a imortalidade de um olhar,
e quando olho para ti
és apenas pó do meu pensar.

a dificuldade de me assentar
no que afinal é real
rouba-me futuro 
e força de carne
num dos mundos.
de escolha entre eles
dedico-me à fantasia,
um tormento que me condena
a uma afinidade à distasia.

esta, a saga de outro mundo,
é uma constante espiral,
onde passeamos até ao seu fundo.
e perdemos tudo, 
de vida na mão
fazemos um jogo de dardos.

sou um fã do sonho
e de ti.