quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

pendido, eu

inconvenientemente, os dias escrevem-me.
por vezes, transparecem em som.

este recorte fotográfico verbal:
num envolvente cinzento cenário,

ambiente abatido meio-pálido, ergue-se um leque de momentos.
(queimados de luz, já:)
grades, redes e muros.
lá estão eles.
não vos percebo a vós.
e invejo-vos a todos.
bebeis do mesmo todos os dias.
sois o mesmo sem falha, sem declive.
sois rasos.
sois areia fina que se deixa levar sempre pelo mesmo.
sois o ferro planetário que decide ordem. 

e eu que por não ter o descanso que anseio,
prefiro fingir-me grão de outra coisa que não vos sei contar.

se me olho,
permito a cor penetrar no espelho
e permito ser refletido.
se me tento entender entre a infinidade de reflexos
que do meu olho ao espelho me conta a ilusão,
finjo que não estou perdido pela aura de bafos que me circunda.

vinco meu pé em terra
e, se me apercebo deste instante,
faço-me por controlar o que respiro;
por lapso, rasgo fragmento (pequeno) da durável palpitação.
ah, e o controlo da visão, não-turva,
que me quer mostrar algo
que eu nunca vejo, nunca vi.


existe um eco que assobia em meu rosto.
pendido, eu penso.
levo-me, constantemente, pelo firme pensamento
de que algo 
pinta um rasgo perturbador na tinta da arte.
algo está errado,
e não sou eu,
não sou eu,
não, sou eu.




quarta-feira, 20 de novembro de 2019

vivência de se perceber algo (que não o amor)

(o sujeito poético conta algo que surgiu na vida de alguém, onde estas palavras existiram)

o devaneio
rouba tempo
que sempre pressenti.
- puro fascínio
ao bruxedo.
a ilusão é sensível e firme.
e eu.
e o sonho.
iguais.

o engenho-irritado
pede revolução.
pedi-me ameno, calmo.

incerta a certeza
no tremer da pele
e na natureza do edifício do momento;
entre nós:
os teus olhos,
o teu mundo,
que me rouba o pensar;
e vejo-te
como que divindade;
não desvio linha-visão
nem um instante
pois estou perdido
na escuridão do conhecido,
que me desconhece.

vejo como que num cenário
de velhos sedosos fabricados livros:
um paralelismo,
outra vida,
o mesmo olhar,
a mesma cor,
não só meus olhos eram o reflexo dos teus,
mas a minha mente era preenchida por eles
e vivo, constantemente, no sonho.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

podia ser hoje o dia

de infeliz feição conto-te a ti,
ó tu que lês, que hoje não é o dia.
queria tanto isto contrariar!
hoje não sigo um pressuposto rumo, creio;
não sou um propósito de acontecimentos, creio.
hoje não se perde a palpitação irritante
que me sussurra favoráveis formas
de ser o que pior se pode ser para quem nos é bom.
hoje sou egoísta e peço para deixar de o ser.
hoje vivo atrás do que me adormece.
hoje procuro (ainda), de forma covarde, o vazio imortal.
perdi fé em mim, no universo e nele envolvido com as minhas ideias.

tenho percorrido pelo orvalho
nas madrugadas mais silenciosas 
para te ver mais uma vez
de olhos escondidos,
boca a respirar e a contar inconscientemene as vezes que vives.
tenho percorrido pela memória,
tenho feito para correr contra o tempo
e imortalizar-me num mero segundo onde sinta o êxtase do que éramos.
tenho perdido infinitas vezes.
tenho errado infinitas vezes.
sou cervo do meu corpo,
mero pedaço de inutilidade;
um prisioneiro de memórias
pronto a ser calcado e triturado por mim próprio.


até se faz sol,
e a natureza vive incompreensivelmente;
contudo, não há impulso que me vire.
hoje estou parado na mesma berma,
onde me senti estático-frio-vulnerável
ao complexo desencadeamento da consequência.
hoje não me visto,
hoje não caminho,
hoje não sou eu.
estou perdido.
hoje não sou teu.
e podia ser hoje o dia em que sou sacudido
e abandono a consciência que em mim existe.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

insónia

vivo num tecido branco
a sobrevoar a roupa que visto
e que se sobrepõe
à rasgada,
pálida, rosa, vermelha,
queimada, em ferida,
doente,
pele que protege
uns quantos órgãos e difíceis/perfeitos metabolismos
que suportam algo que ofereço a este momento de escrita.

e deste tecido que vos falo: 
queria eu fazer um confortável lar
onde me fosse viável:
sentir cheiro a rosmaninho de toque,
experimentar o verdadeiro ferver de confortável hibernação,
saber queimar tempo a subsistir o presente.
inconcebível.

somos interação.
uma rede monstruosa
de todas e quaisquer formas de movimento,
que nos rasgam, consomem da carne, vertem a não-novidade
e amplificam o que já existe.
(maldito perigoso livre-arbítrio;
todo o som, ou luz, ou qualquer propagação universal comunica.
ouve-te. que dirias tu a esta novidade?)

este lençol já não é pálido.
este mundo já não é pálido.
este planeta já não o é.



sexta-feira, 26 de abril de 2019

episódio de uma maré alta

correntes límpidas
prendem o que és,
enquanto o mar dança.
vem e volta.

tu de correntes no corpo
és a mesma,
em construção,
em destruição,
mais salgada,
mais o que serás,
menos o que eras,
lentamente a coisa desenrola,
lentamente a natureza faz-te.
não te ergas perante isto.
não te estragues bruscamente.
não te voltes rapidamente.
não te torças entre músculos, tendões e ossos.
não te rasgues num instante.
prevê situações, mas nem tanto.
aproveita a leveza de uma tépida constante, irritante, evolução.
aprecia a graça a que o próprio universo se constrói.
passo a passo. dia a dia. tempo a tempo. energia a energia.
ele está, repetidamente, a mover-se por onde é capaz,
coincidente às leis que lhe estão impingidas.

não sou um moralista.
e partilho isto
ao mesmo tempo que rasgo papéis de coisas escritas outrora.
não sou o que te peço para seres
ou o ideal do homem.
não te conformes, se o achares.

e Tu para onde vais?
levas um rasto de areia
uns quantos, tantos, cristais, finos, pequenos
que criam padrões. iguais. aos de células que tenho nas peles.
levas coisa que viste em mim,
entretanto vais perdendo
e contigo vou-me perdendo.
vou perdendo qualquer tecido de pele
que reveste o que sou;
até que num esplendor momentâneo
estou nu,
sou inteiramente eu a teus olhos,
e nem o percebes.
talvez de tanto revestimento padronizado
pensas, agora, que minha verdadeira, sagrada, 
imune, essência é, de novo, uma capa que reveste.
não me arranco os músculos, 
nem os órgãos, 
nem os cabelos, 
nem a voz,
nem a unha,
nem os olhos que não vês,
pois continuam a ser parte de mim.
vou-me construindo,
pelo que o mar me oferece,
pelo que o mar me tira,
sou tudo o que o oceano me respira
(ainda que por vezes me sufoque).
não me perco, não me desfaço (por enquanto).

sabes que sei que te devo umas quantas palavras quentes.
rebobina os teus olhos ao contrário e lê: palavras estas ti para sempre escrevi.

sei eu, pouco valem.

terça-feira, 19 de março de 2019

o crescimento é terrível

a calmaria tem-me andado surda,
mas não para ele.

pouca luz rasga aquele espaço. e pouca luz ele quer. não é que lhe confunda os olhos ou os possa queimar. talvez ele esteja farto da exposta necessária queimaria a que fica sujeito. não há força que o valha, ele é obrigado a respirar este tipo de rotina. e arde-lhe. custa-lhe engolir a seco toda e qualquer adversidade, não-bem-vinda, que o enfrente. o verdadeiro problema é que se torna constante. é desgastante tortura. uma crueldade que, apenas lhe parecendo a ele, mais ninguém percebe. ele não se oferece de bom grado à vida. talvez veja a vida por um prisma que faça apenas explodir pequenas porções de cores. talvez ele prefira a monocromia enquanto não repousa e queima outros tantos tempos da sua expectante vida. talvez ele seja dos únicos a apreciar o leque de tanta cor na vida. e por isto, peca-lhe aos olhos toda a exposição de cor a todo o instante. talvez ele saiba deliciar-se, ocasionalmente, com o que realmente existe no dia. e daí, possa cometer uns ligeiros pecados que aglutinados servem como um perdão às suas necessidades.

eu era assim. é uma pena eu já não o saber ser.
enquanto crianças, somos, ou seremos, tudo o que queremos. e as profundas sensações que isto acarreta reconfortam todo o desgaste na terra ou todo o choro que nos tenha atingido. eventualmente, a pele prende ao osso e descai com a idade - e assim, o nosso pessoal conjunto de idealismos, criações que nos tenham deixado a salivar pelo futuro, que já ficaram no passado também o fazem - a certo tempo a pele que serve como barreira protetora, transforma-se num fluido suspenso numa atmosfera que nos mata a sede, aniquila umas quantas ideias e traz, com ela, o próprio saber da vida que nos parece a mais pura elucidação. além de nos proteger, ela revolta-se em ideais e muda-nos, como quem não se importa com a voz de quem dita alguns movimentos conscientes do sistema. talvez seja uma espécie de necessidade espiritual ou divina. levar com umas trezentas e tais gotas no rosto e perceber que cada uma delas é um novo pensamento, uma distorção, do que nos era uma idealização e agora se vinca como peculiar deformação leva-nos à simples perceção de novos detalhes, novos limites e cruzamentos, que nos fazem crer que a perfeição está quase ali atingida. isto, pelo menos para nós, enquanto indivíduos diferentes. e aceitamos tudo o que agora nos completa, na nossa nova visão de nós mesmos.

sábado, 19 de janeiro de 2019

ranjo-me

sou regido 
dentro de rede.
sou resto
de pura raiva roubada
de cabeça rasgada
a cabeça revoltada.
não rogo.
rasgo-me.
refaço-me e rasgo-me.
não fico satisfeito do que me resta.
volto ao meu eu. revolto-me.
reparto-me. regulo-me.
não devia? reporto-me.
parto esmalte, ranjo-me.
repreendo-me.
não sou ríspido.
preciso de educativa, esmerada repressão.
anseio por elucidativa reparação.
não vejo, não entendo o correr da sociedade robusta.
anseio radical revolução.
não devia,
perco a noção das palavras:
a sua ordem, estática, que acerta ao dever;
e fogem-me umas quantas falinhas mansas 
que deviam permanecer em mim.
rasgo-me.
perco a realidade.
remonto-me,
quando percebo a existência de ruptura.
restabeleço-me,
recuro-me.
não passo de meu reflexo.
um alguém condicionado, pressionado, rudimentar.
ranjo-me.
sou de remorso,
e se me revelo
perco a ordem que me retém.
recuso-me,
revisto-me,
reverto-me,
não vou acordar,
reinvento-me.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

o murmurinho urbano

não resisto.
falo de mim porque só de mim sei.
não olho,
não peco
ao rasgar olhares turvos
que quase me atingem.
faço-o às cegas
num universo fechado; inexistente.
faço-o ao respirar.
repelo o impuro.
sou o que sou, e mais não quero.
sou o que a raiz austera da vida me alimenta.
sem químico.
sem mistura.
sem dedilhado humano à fervura.
nojento este ser que contamina
em cada robusta pernada
e certa vida termina.

e toda a calçada,
toda a rocha que compõe o solo,
e a fresca relva
são agora de cheiro plástico,
aroma sintético de maquinaria cinza:
barulhenta, ofegante, constante, irritante mutante da vida.
meramente lixo semeado
que está, agora, contido em completo lado.
não sobrevivi.