terça-feira, 31 de outubro de 2017

o pós-carne

universo que expande
à dor nefasta
e sucede liberdade.

desvio
que se desvia
à escolha de um desvio.
a polaridade da vida.

- está alguém por perto?
a ânsia da procura.
perde a tinta,
escoa-a entre a rua,
faz ao desvio finta,
isto,
até ao fim do tempo.

o silêncio que perdura,
o infantil pensar de alvura,
o trato ao oponente imaginário,
o anjo caído só
na noite mais escura;
a traição,
e os mortos desconhecidos 
que nos procuram;
ninguém o sabe.
no fim do tempo
o arché-dúvida perdura.

ah, ser absorvido
pelo pensar sedentário
num sono solitário
aos olhares invisíveis.
há infração.

o universo exalta-nos,
o anjo caído lacrimeja.
um grito de adeus,
a saudação do repouso,
a calmaria certa do vento,
e o não movimento
do músculo-sangue
ao fim do tempo.

está alguém aí?

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

ofegante cegueira

a noite em que sopraste
e me possuiste, oh diabo.
ora, não seria diabo
ou qualquer entidade divina.
seria, sim, a alma;
pura e doce
que me persisto em querer.
e levitamos na nossa quimera
uma junção de mentes, iguais.
a explosão eterna ao fogo da fera.

e ao pouco ruído da cidade,
entre nós,
a luva solta-se
e a alma é nua.
ah, e este rasgar com o toque à alma.
o sangue do que dizes,
o desejo entre a escuridão
e o cortar o silêncio
com a tua respiração.
ah, a vida que se me morra
e eu que sinta para sempre
o teu suave toque.

domingo, 15 de outubro de 2017

vermelho artificial

um nada extremo, pleno.
sem cor.
sem forma.
ausência de tudo,
mas há vida.

não um sentir um tanto
ousado ao outrem.
algo de sangue,
que alguém lho pinta,
quase que tinta
que lhe percorre,
entre os fios,
um vermelho artificial.

e enquanto o nada existe,
a chuva molda a terra,
e se o nada existe
e ele é o nada
que não sente,
onde é morta a caçada,
este prefere ser
terra moldada.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

o silêncio da chama

um cosmo
num lapso preenchido
de planetas e poeira
e um todo universo,
tão pacificamente vasto
e afastado, que traz vigor
e levo a tinta neste papel a rasto.
e eu não desisto da viagem,
pois a tua melodia arrasta-me
à calma do arder,
à calma de uma explosão
que me estou a ceder.

a intensa viagem
longa e persistente
que me escorre o pensar
e me faz impotente.

universo que nos arde
com um propósito;
o silêncio da chama.
ah, esse silêncio mudo.
o pós-chama não é um nada
mas, a possibilidade de tudo.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

viagem ao escuro

relento e frio;
um rasgar de vida,
de formatos.
um castanho de trapos,
e o descanso à árvore.
um ou dois sonhos
neste perder entre a ilusão.

e é sonho;
a semelhança
à alma, à vida,
que se via
ao cruzar dum olhar 
por entre a lava que flui
e a energia que te possui;
o sangue encoberto
no teu fitar;
a tinta da terra.
a calma, a não guerra,
o não lacrimejar,
que me inspira
e me forja
ao ruído da noite despida.

cada palavra
perdida, sentida, atirada,
como que pó de ar,
que ambos respiramos
e se fere em pulmão
ao contínuo viver
por uma remota dependência
que me inventa ficção.

cesso-me nesta escrita
pois cai-me a anestesia
e és mais que poesia.

sábado, 7 de outubro de 2017

âmago da terra

matriz, dona, alteza.

a raiz,
que nos segura
sem pergunta.
por definição;
é peso-ferro da perfeição.

o caule,
é mais que ligação;
osso de vida.
madeira primordial,
é aqui que o sonho se enfrenta;
e uns arruínam-se à estrada.
perco-me.
ora, o seivoso foge-me,
e dito-me à morte,
ora, ele é-me no sangue próprio fluxo 
e o nosferatu corrói o nefasto.

a folha,
a colagem do segmento,
ao longe,
sem erro,
é um reflexo da matriz-ferro,
uma alucinação ao enterro.
fazem-se exemplo do que é o ser.
concedem visão ao átomo-gigante;
este suporte aéreo que diante
aos nossos olhos
persegue, ao seu ritmo,
o momento do vento.