olhos presos ao chão.
fria a noite.
palavras ocas, secas,
presas a uma não-vontade (ainda que muita).
olhos erguidos de brilho que serra.
olhar de vontades.
vontade de morder a febre;
saborear a fome.
saborear a própria vontade de saber,
de te saber
e saber à fome que não come.
vontade de saber-te.
como quem folheia livro pós-lido
e come a essência das palavras
de pensamento espancado.
vontade de ver o que existe.
vontade de arruinar o presente,
cantar à lua, certa, desejada mudança,
agir como criança,
enterrar dedos na areia
e sentir cada grão a roer carne por baixo da unha;
e do mineral intruso na veia
ser árvore de longos ramos.
pedaço certo da natureza do universo.
apeteço ser dominado
por pensamento de um futuro ideal,
pois neste presente
sou menos do que desejo;
meus olhos deparam-se com algo
que me sufoca
e rasga cada palavra
que descreve o que poderia eu expor
com verdade na voz perante vós
que sois o que a era medieval não previa
neste futuro discordante.
sexta-feira, 30 de novembro de 2018
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
diário-carta, verão
dia 1
a poesia morreu;
e eu.
dia 2
à cana do nariz.
tanto o toque: rasgada pele,
indolor fria cicatriz
corroborada por vermelha, em fervura, vida.
sinto, com atenção:
a surdez quieta do mundo,
o foco ao teu rosto,
o desejo momentâneo,
o teu silêncio.
troco um olhar por um sonho.
sonhei mais que nunca.
senti-me robusto animal em real simulação
a pintar o seu mundo de inverno.
não peço por sono.
resisto-lhe.
peço, sim, por vividos dias
anexado à aura
que me força a contornar a realidade
e a viver de embruxadas melodias.
dia 3
na noite
vivemos da mocidade.
o vento sussurrou-me palavras
e eu aqueci o teu ouvido.
não carrego o dom
de manipular as palavras
num tom de expressar o que depois surgiu,
mas ainda hoje vejo corante
na palidez da tua não-paz;
e se me foge a realidade
vejo-me contigo naquela praia.
e se vivo em quimera o que seria sanidade?
(a vida são três dias e mais umas quantas invenções)
quarta-feira, 22 de agosto de 2018
leque de sensações//fascínio à febre
pt•1
esta terra,
este vento,
este amarelo a mergulhar uma fusão de cores;
este exato momento,
quero seu controle,
não correrei atrás do movimento,
quero-o em mim
em forma eterna,
imortal em carne seca, salgada, putrida em boca cheia de ave que sabe gritar o agora.
pt•2,3
pinto o que vejo,
guardo o que o olho, vidrado,
não vê,
guardo o que (em ti) não transparece.
encaro(-te). guardo, reflito,
intrigado, aos olhos
que pedem certa e qualquer vida.
pt•3,2
sagaz perceção,
um estímulo cósmico prende-me braço.
vidrado, indeciso, ausente,
deixo que me dite o presente.
por qual razão me levas momento?
e neste rasto,
que traças,
que me alcanças,
que me persegues em firmes tranças,
o tempo estica
e cintilantes, luminosos, determinados, momentos discutem minha vida
enquanto os observo; disto penso:
o que seria eu, nu,
de carne aberta às leis da selva,
às forças que forçam meu rosto
à morte-imposto?
e por qual razão me tomas o braço agora?
e fazes-me correr atrás
como animal veloz, silencioso, defensivo que vejo.
pt•4,3
silhueta espelhada,
noturna, quente,
vincada, crua, esta alma.
fui guiado pelo vôo
que transcende vida
num simples gesto de um nascimento traçado até à sua morte.
ocasional perdido caminhar.
neste leque de ar
todo labirinto é percurso de meu sangue,
todo o fluxo corre às explosões iniciais, universais, que ainda hoje respiram,
respiro o desconhecido,
sinto febre de sentimento enaltecido.
ah, e as condicionantes,
toda a barreira,
todo o pedaço de terra-tecido,
rasgo-os!
rasgo e uno as pontas;
ânsia matreira,
cedo-me.
pt•5,4
forço osso em êxtase
pelo inseguro, insolente,
infantil, natural lacrimejar.
ah, o agora...
o antigo agora queria eu pairar,
viver do mais que tudo,
do agora queria eu eternamente rasgar os céus,
perder-me na flora,
aconchegar-me à (tua) presença,
socorrer a minha febre
ao (teu) frio,
pintar com meu sangue (teu) tecido pálido.
pt•6,5
e deste agora,
roubo eu papel e tinta ao mundo;
quando outrora
o mundo terá sido
o ladrão do motivo
que me força mão
e repete num eco-constante pensamentos-sonhos.
pt•7,6
realidades difíceis.
fábrica utópica.
raro meteoro que rasga os céus.
intensa luz estrelar.
um símbolo?
uma mensagem?
é(s) uma estrela cadente?
peço em rugido-mental
que todo o momento
abafe o tempo
e me faça embarcar
ao esplendor do sonho.
perdi-me.
esta terra,
este vento,
este amarelo a mergulhar uma fusão de cores;
este exato momento,
quero seu controle,
não correrei atrás do movimento,
quero-o em mim
em forma eterna,
imortal em carne seca, salgada, putrida em boca cheia de ave que sabe gritar o agora.
pt•2,3
pinto o que vejo,
guardo o que o olho, vidrado,
não vê,
guardo o que (em ti) não transparece.
encaro(-te). guardo, reflito,
intrigado, aos olhos
que pedem certa e qualquer vida.
pt•3,2
sagaz perceção,
um estímulo cósmico prende-me braço.
vidrado, indeciso, ausente,
deixo que me dite o presente.
por qual razão me levas momento?
e neste rasto,
que traças,
que me alcanças,
que me persegues em firmes tranças,
o tempo estica
e cintilantes, luminosos, determinados, momentos discutem minha vida
enquanto os observo; disto penso:
o que seria eu, nu,
de carne aberta às leis da selva,
às forças que forçam meu rosto
à morte-imposto?
e por qual razão me tomas o braço agora?
e fazes-me correr atrás
como animal veloz, silencioso, defensivo que vejo.
pt•4,3
silhueta espelhada,
noturna, quente,
vincada, crua, esta alma.
fui guiado pelo vôo
que transcende vida
num simples gesto de um nascimento traçado até à sua morte.
ocasional perdido caminhar.
neste leque de ar
todo labirinto é percurso de meu sangue,
todo o fluxo corre às explosões iniciais, universais, que ainda hoje respiram,
respiro o desconhecido,
sinto febre de sentimento enaltecido.
ah, e as condicionantes,
toda a barreira,
todo o pedaço de terra-tecido,
rasgo-os!
rasgo e uno as pontas;
ânsia matreira,
cedo-me.
pt•5,4
forço osso em êxtase
pelo inseguro, insolente,
infantil, natural lacrimejar.
ah, o agora...
o antigo agora queria eu pairar,
viver do mais que tudo,
do agora queria eu eternamente rasgar os céus,
perder-me na flora,
aconchegar-me à (tua) presença,
socorrer a minha febre
ao (teu) frio,
pintar com meu sangue (teu) tecido pálido.
pt•6,5
e deste agora,
roubo eu papel e tinta ao mundo;
quando outrora
o mundo terá sido
o ladrão do motivo
que me força mão
e repete num eco-constante pensamentos-sonhos.
pt•7,6
realidades difíceis.
fábrica utópica.
raro meteoro que rasga os céus.
intensa luz estrelar.
um símbolo?
uma mensagem?
é(s) uma estrela cadente?
peço em rugido-mental
que todo o momento
abafe o tempo
e me faça embarcar
ao esplendor do sonho.
perdi-me.
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
odaxelagnia
som vago,
voz seca,
mudas palavras na aragem,
mente que peca
e um quente-frio ferver.
aceso, iluminado,
discreto pensamento
causa-me mazela - tosse,
seca - como que aniquilador de silêncios,
uma salvação às palavras que lhe custam a sair;
um bafo húmido,
agora, palavras camufladas rodeiam em espinhos o clima.
meias-palavras, boca entreaberta,
fumo na silhueta que some ao frio da rua.
quem serás realmente?
espelho de nevoeiro,
olhar imortal.
não me perco, não me perdi.
intrigo-me,
sou criança,
procuro cada contraste
deste enfadonho mundo
que me faça erguer
braço, perna, queixo,
roer a constante branda monotonia
que me agonia.
procuro tinta que aniquile
toda pintura já atingida
por múltiplos olhares.
procuro o ruído
que infiltre na minha mente
um novo astro que ascenda toda a manhã e morra ao cair do dia.
procuro a sensação de que a liberdade é a terra por onde piso,
procuro a porta às tuas palavras,
não me esforço?;
anseio certa voz cravada na pele,
a dor,
o ruir da noite,
o profundo calado olhar,
o encobrir,
o revirar,
o quente inexplorado fluxo que te escorre do pescoço ao chão,
o morrer do tempo,
o estremecer da pele
que sente o enterrar de velhas sensações, absorvidas, muitas.
voz seca,
mudas palavras na aragem,
mente que peca
e um quente-frio ferver.
aceso, iluminado,
discreto pensamento
causa-me mazela - tosse,
seca - como que aniquilador de silêncios,
uma salvação às palavras que lhe custam a sair;
um bafo húmido,
agora, palavras camufladas rodeiam em espinhos o clima.
meias-palavras, boca entreaberta,
fumo na silhueta que some ao frio da rua.
quem serás realmente?
espelho de nevoeiro,
olhar imortal.
não me perco, não me perdi.
intrigo-me,
sou criança,
procuro cada contraste
deste enfadonho mundo
que me faça erguer
braço, perna, queixo,
roer a constante branda monotonia
que me agonia.
procuro tinta que aniquile
toda pintura já atingida
por múltiplos olhares.
procuro o ruído
que infiltre na minha mente
um novo astro que ascenda toda a manhã e morra ao cair do dia.
procuro a sensação de que a liberdade é a terra por onde piso,
procuro a porta às tuas palavras,
não me esforço?;
anseio certa voz cravada na pele,
a dor,
o ruir da noite,
o profundo calado olhar,
o encobrir,
o revirar,
o quente inexplorado fluxo que te escorre do pescoço ao chão,
o morrer do tempo,
o estremecer da pele
que sente o enterrar de velhas sensações, absorvidas, muitas.
quarta-feira, 6 de junho de 2018
auto-sussurro
morre,
vive,
não me leias.
não respires, queima os teus pulmões.
apodrece, faz-te pó, areia, terra.
vive na chama do desconhecido.
quem és tu para usufruir da vida
e dela seres capaz de alterar excertos do mundo?
nem que o saibas, todo o segredo vive hibernado em ti.
não me leias, lê-te.
vive de ti, deixa toda a energia que transpiras fluir em ti.
és mais que todo o teu corpo ou teu espírito.
és artista
capaz de pintar o véu que neste momento me vence.
peço-te: lê-te e sussurra-me os teus segredos.
vive,
não me leias.
não respires, queima os teus pulmões.
apodrece, faz-te pó, areia, terra.
vive na chama do desconhecido.
quem és tu para usufruir da vida
e dela seres capaz de alterar excertos do mundo?
nem que o saibas, todo o segredo vive hibernado em ti.
não me leias, lê-te.
vive de ti, deixa toda a energia que transpiras fluir em ti.
és mais que todo o teu corpo ou teu espírito.
és artista
capaz de pintar o véu que neste momento me vence.
peço-te: lê-te e sussurra-me os teus segredos.
quinta-feira, 24 de maio de 2018
constante ano 0 // páginas sagradas rasgadas
alguém tentou.
marcou o início das datas e
tentou mantê-lo em controlo
enquanto usava, a palavra (rasgada),
cabelo crespo longo, barba,
um quê de filósofo,
dedo no ar - a pedir a chuva que o alimenta
- peixe, vinho, uma retórica arriscada,
palavreado quase sentido
e perfurou o sentido da vida outrora incutido...
e dignificam-se ao libido
que os deixam rebaixados
numa rugosa lenha que cruza o seu fim.
cem preocupações - o nunca, certamente, conseguir saber.
quentes olhos, brandas nuvens,
pesado vento que, areia
e resquícios de sono mal acabado leva,
à canção o embala;
fórmula anti-treva
invertida em si;
senhor transparente, morto em significados;
este é o viver dos bem-aventurados.
quanta banalidade nos cega?
estas palavras, a constante noção,
ilusão?, a contínua passagem à entrega
de palavras que por nós fabricadas,
e nelas quanta veracidade conseguimos criar?
anulo o significado destas aqui invocadas.
marcou o início das datas e
tentou mantê-lo em controlo
enquanto usava, a palavra (rasgada),
cabelo crespo longo, barba,
um quê de filósofo,
dedo no ar - a pedir a chuva que o alimenta
- peixe, vinho, uma retórica arriscada,
palavreado quase sentido
e perfurou o sentido da vida outrora incutido...
e dignificam-se ao libido
que os deixam rebaixados
numa rugosa lenha que cruza o seu fim.
cem preocupações - o nunca, certamente, conseguir saber.
quentes olhos, brandas nuvens,
pesado vento que, areia
e resquícios de sono mal acabado leva,
à canção o embala;
fórmula anti-treva
invertida em si;
senhor transparente, morto em significados;
este é o viver dos bem-aventurados.
quanta banalidade nos cega?
estas palavras, a constante noção,
ilusão?, a contínua passagem à entrega
de palavras que por nós fabricadas,
e nelas quanta veracidade conseguimos criar?
anulo o significado destas aqui invocadas.
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
desabrochar
não fabricarei.
respiro este ar noturno,
a máquina processa este sangue;
quente pressa por entre a carne.
não pensarei a poesia,
e estas letras, palavras, sairão
como que chuva-sangue que pinta chão.
a terra pede brasa.
uma revolução de vida.
a raiz é débil,
a flor é rara.
num ocasional olhar
por entre feixes solares
como que mensagens divinas e individuais
cria-se cenário-panorama divino.
o vento canta e embala por onde passa
à gelada voz de anjo.
a primavera em estátua que move,
um molde de beleza,
um querer existir em arte.
de tal encanto:
fecho os olhos. crio o cenário-réplica.
guarda-o.
reflito.
a vida enruga ao universo,
às leis e aos existires globais
e que faço eu?
preso a este ser que a mim me segue;
cada passo à vista é sombra roubada,
cada molde espelhado é versão do meu eu melhorada
e eu contemplo-a.
contemplo o fulgor que lhe envio,
contemplo cada pétala que lhe assenta.
contemplo a lucidez que recebo.
o mar acaba-se, a mente está viva, ancoro o navio.
ah, esta cegueira de foco ao clarão do sol
e tudo fica límpido quando encaro o raro girassol.
respiro este ar noturno,
a máquina processa este sangue;
quente pressa por entre a carne.
não pensarei a poesia,
e estas letras, palavras, sairão
como que chuva-sangue que pinta chão.
a terra pede brasa.
uma revolução de vida.
a raiz é débil,
a flor é rara.
num ocasional olhar
por entre feixes solares
como que mensagens divinas e individuais
cria-se cenário-panorama divino.
o vento canta e embala por onde passa
à gelada voz de anjo.
a primavera em estátua que move,
um molde de beleza,
um querer existir em arte.
de tal encanto:
fecho os olhos. crio o cenário-réplica.
guarda-o.
reflito.
a vida enruga ao universo,
às leis e aos existires globais
e que faço eu?
preso a este ser que a mim me segue;
cada passo à vista é sombra roubada,
cada molde espelhado é versão do meu eu melhorada
e eu contemplo-a.
contemplo o fulgor que lhe envio,
contemplo cada pétala que lhe assenta.
contemplo a lucidez que recebo.
o mar acaba-se, a mente está viva, ancoro o navio.
ah, esta cegueira de foco ao clarão do sol
e tudo fica límpido quando encaro o raro girassol.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
uma aprendiz traça
perdi a poesia,
deixei-a entre a colina longínqua,
entre palavras inexistentes
e causas sentidas,
que imaginava quando os olhos cerrava.
entreguei-me à sombra.
apego-me a um lampião,
ah, e esta luz faz-me traçar, criar, tecer letras.
contemplo:
a luz - as formas do mundo,
cada corrida
e sentimento que os demais renunciam.
admiro o esquecido,
as sobras de vitórias gloriosas
que esbordam em ilusão a vida.
contemplo toda a estrutura,
todo o tecido de toda esta teia.
tenho-a em mim.
e é inseto à aranha toda a verdade
que percorre nesta veia:
que a arranco,
mato-a, estripo-a, volta-me,
nunca dá descanso.
por fim,
observo o mais que tudo ao mundo:
esta natureza, não só vossa, igualmente minha.
todo eu sou mutuamente lama, vida, selva.
ah, contemplo todo o inseto que em mim mora,
a aranha sorri,
pois a refeição cobra-se a esta hora.
deixei-a entre a colina longínqua,
entre palavras inexistentes
e causas sentidas,
que imaginava quando os olhos cerrava.
entreguei-me à sombra.
apego-me a um lampião,
ah, e esta luz faz-me traçar, criar, tecer letras.
contemplo:
a luz - as formas do mundo,
cada corrida
e sentimento que os demais renunciam.
admiro o esquecido,
as sobras de vitórias gloriosas
que esbordam em ilusão a vida.
contemplo toda a estrutura,
todo o tecido de toda esta teia.
tenho-a em mim.
e é inseto à aranha toda a verdade
que percorre nesta veia:
que a arranco,
mato-a, estripo-a, volta-me,
nunca dá descanso.
por fim,
observo o mais que tudo ao mundo:
esta natureza, não só vossa, igualmente minha.
todo eu sou mutuamente lama, vida, selva.
ah, contemplo todo o inseto que em mim mora,
a aranha sorri,
pois a refeição cobra-se a esta hora.
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